É mais do que deflorar a manhã que em sua crosta hostil impõe-se enquanto nevoeiro e enquanto hora. É mais do que dissipar as chamas da noite que se anuncia em oscilações oníricas. É mais. É mais que esfaquear a tarde em microscópicos fragmentos vis e depois recolhê-la em flor a cada novo crepúsculo. Sustento que é mais que isso. É mais que lutar com a pedra em seu rígido fastio e tecê-la em manto de eternidade. Talhada a lágrima, não faço mais que minha obrigação. Espero. Contento-me em debulhar relógios. É só o que me resta.
18 de junho de 2007.
(no ônibus, depois da observação de um nevoeiro)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
BURACO
Inventei-me e espiei pra dentro como quem cava um buraco. Mas eis que percebo o óbvio: faltam-me as unhas crescidas para ajudar na cava, Faltou um pedaço grande quando terminei – ou supus ter terminado – a invenção de mim. Muitos me olham turvo torto como se eu nem gente fosse. Finjo não estar aí para esta gama de coisas, tento enxergar por dentro da nuvem - que de tão cinzenta me anuvia alma – ou sigo no labutar a construir o pedaço que falta. Encontro um toco de árvore e penso em aproveitá-lo mas é tarde. Todos os mortos já têm suas covas.
domingo, 18 de maio de 2008
Nascerá em setembro
Desde o momento em que você me toque, não sei o que nascerá. Se místicos silêncios, míticas criaturas, mínimos convites à ventura tortura-nte de dividir-se ou multiplicar-se, ou este silêncio nada insepulto que me veste ao revés como de um jeito fúnebre que não combina-nada com esta idéia de nascer e muito menos de nascer em setembro, em plena veste primaveril, ou de ver em ver-sículos in-visivel--mente escritos. Não chora. Ainda que se bata em suas nádegas não chora. Fala com as mãos que manipulam o olhar estático dos meus sons. Eu que não vi, olhei envis-tesado com o meu olho esquerdo, mas falta a lente de contato. Os dedos doem, me custa falar com as mãos o que o ouvido não dá conta de ver e o olho direito, repleto das degenerações reticulares ou maculares – me parece melhor – como disse a médica que examinou-me a fundo a janela direita, dá forma a tudo o que vai lá, mas perde o que vem. Deste modo quem pode amar assim? O que nascerá desta febre que dá e passa em setembro se nada se deixa ver de perto do lado direito? Passarei espaçosa ao longe do meu lado emocional que dói todo – o direito que nada tem de direito – de tão usado e desgastacionado pelos movimentos que danam a repetivividade. Deitarei espessa no fato de que precisarei de lentes para ver de perto, mas quem me garante a vera-cidade do que me vem achegar-se? Leia para mim! Leia para mim as pálpebras do meu amado, ou os pêlos mais finos do seu peito para que em mim derramado, eu possa vê-lo sem recurso, a alma e a cútis, numa plenitude que só no escuro se possa enxergar. Assim nascerá, em setembro ou em qualquer mês janeleiro. E derradeiro em mim, ganhará mundo.
25 de agosto de 2007, depois de assistir ao documentário “Janela da alma”
25 de agosto de 2007, depois de assistir ao documentário “Janela da alma”
O sol brilha lá fora mas eu acordei pra dentro. (para Daniela Pesset)
O sol brilha lá fora mas eu acordei pra dentro. Os pais brincam com seus filhos nos parques e condomínios, jogam bola, mas o que era pequeno ficou grande. Tomei um gole d’água que ganhou ares de tempestade. Hoje tudo é grande em mim: as mortes sucessivas, seguidas todas sempre de suas respectivas ausências, os vazios tão cheios de pecados que o corpo de Cristo que recebi esta manhã já me transbordou. Já não me cabe, não mereço, não sou digna. No entanto, o sol brilha. Há mães fitando seus rebentos pela primeira vez. Mas hoje em mim só cabe o olhar daquela que se despediu. Não há onde guardar canções de mar ou melodias de céu, resta o silêncio de quem já ouviu um dia e sabe muito bem o que perdeu. Mas apesar de tudo, o sol brilha. E esquentou até a fervura do meu dorso à porta do templo. Eu não cabia lá dentro, sosseguei do lado de fora, sentada no chão. Tudo imenso. Mais imenso e intenso que qualquer dor.
Rio, 6 de maio de 2007.
Rio, 6 de maio de 2007.
Foi assim que a encontrei (para Juracy Alarcón)
A casa antiga me esperava há tempos, mas faltava coragem de entrar. As pedras largas e quadradas cobriam o quintal em conjunto com a grama que há muito não via aparo. A falta de iluminação afastava mais ainda quem de fora avistasse. Quem sabia o que poderia encontrar? Só que naquela noite, eu, por mais incrível que pudesse parecer, sabia muito bem o que procurava, e, certo do que achar, enterrei o medo que me gelava os ossos. Fui em frente. Gritinhos infantis ecoavam ao longe e meio como borboleta que escapa, pude ver o vulto de uma criança que corria. Estaria ela brincando de esconder? Vestida no seu roupão de toalha aberto, deixava à mostra o maiô estampado. Ela se movia mais rapidamente do que um inseto, e ria, ria, gritava: “Você não me pega!” Molhada, deixava as marcas dos pezinhos nas pedras. Seu rabo-de-cavalo pingava gotas que caíam como que pintando o caminho. De repente, ela desapareceu. Não ouvi nem vi mais nada. Cheguei à beira da piscina que, vazia, tinha o fundo coberto de folhas mortas. O vento frio me gelou as vestes. Nenhuma roupa, por mais quente que fosse, poderia me aquecer.
Uma janela estava acesa, lá estava marcado o nosso encontro. Eu reconheceria quando visse a luz, ela disse. Não ofuscante, não, pelo contrário, era bem fraca, penumbra de lampião que dava ao ambiente um tom sépia de foto antiga. Subi as escadas. Escorreguei os dedos pelo corrimão coberto de poeira, mas ao cair no chão o pó brilhava. Era tão fino como fuligem. Ao chegar mais perto da porta de onde brotava a luz, a promessa de calor se anunciava: um morno ar, uma aura notória de aconchego. Estaria eu já tão perto dela? Ao entrar, tive certeza: a sala era outro mundo: nem sinal de poeira, vento ou escuridão. O cômodo guardava seus móveis de aparência real, confortáveis e de contorno dourado.
Eis que me sai dentre a cortina de contas, ela, a própria, trazendo consigo um perfume doce de rosas. Fazia tempo que não a via assim, tão clara. Estendeu as mãos em minha direção e não pestanejei, agarrei-lhe os dedos mansos e firmes, como no tempo em que dançavam nas teclas do piano. A pele enrugada de viço me jurava colo encostando-se na minha tão leve como brisa. Tocá-la assim me arrancava as palavras da boca. Desviando o olhar ela caminhou comigo até uma poltrona encostada na parede rosada. Sentou-se e sorriu para seu filho que, menino, derramava-se no sofá ao lado. Uma manta o cobria até o pescoço. Passou-lhe a mão pelos cabelos. Ele devolveu o sorriso, os dentinhos separados e miúdos. Ajoelhei-me diante dela e encostei a cabeça no seu peito. Seus batimentos, seu corpo pulsando vida em meus ouvidos... Atormentado de culpa, eu só conseguia dizer: “Sei que não tenho muito tempo...” Repeti seguidas vezes esta mesma frase até me pegar acariciando o encosto da poltrona. Foi tão rápido. Ainda sinto o calor do corpo dela. Foi tão rápido. Esperei tanto por este momento... Quem haveria de me tirar as frases da língua? Onde estariam as conversas que teríamos? Não pude dizer palavra, repeti sem rumo a mesma frase até abrir os olhos e me deparar com a luz branca e intensa que vinha da lâmpada fria do meu quarto. Fitei o teto. Alguém apagou a luz. Quem?
15 de setembro de 2007.
sábado, 9 de junho de 2007
A INVASÃO
Disse bem o poeta: “Que seja infinito enquanto dure”. Não dura para sempre. Há que fazer mil e umas outras tantas mil para manter um amor vivo. Cuidado, ele morre facilmente de inanição. É preciso construir já – você que começa a amar – uma máquina do tempo. Caso não voltemos incessantemente no tempo ele se apavora, foge e acaba morrendo atropelado pelos carros que pasmem, somos nós ao volante. Cuida para não ficar abobalhado diante de algo tão mágico, que tem a carcaça de eterno. Mas é só por fora, por dentro é frágil como porcelana fina, como cristal dos mais autênticos, nem é preciso cair para se quebrar, cai em pé mesmo, feito gato, quando menos se espera. O discurso nesta hora é sempre o mesmo: “como eu podia saber?” Mas você sabia desde o início, sua mãe e seu pai lhe avisaram, os filmes, as músicas dor-de-cotovelo, todas as pistas lhe foram dadas – free, de graça, sem custo algum – conselhos lhe chegaram de todas as partes do mundo, em todos os idiomas para que não se corresse o risco de não ser entendido, mas...mesmo assim você não escutou. Quando ele caiu doente pela primeira vez você achou que era só um resfriadinho, deixou que ele passasse frio, fome, dor, melancolia, raiva, e quando o troço tava virando pneumonia, o que você fez? Nada. Pois é, você não fez nada, e quando a gente não faz nada vem uma senhora gorda bater na porta dele e quando ele abre, já era, ela entra sem pedir licença e ocupa todos os espaços que você deixou vazios. E quando ela entrou e não sobrou nenhum espacinho, ele tenta sobreviver, faz de tudo, chama a emergência, pula, grita –mesmo com a voz já fraquinha- pede socorro, mas você teima em pecar novamente por omissão de socorro e acha que é tudo frescura, chilique, piripaque, coisa normal depois de alguns anos de idade. Neste momento você teria como recurso a máquina do tempo – tão útil nesses casos – se a sua estivesse funcionando, mas o combustível está em falta e você nem acha necessário, tão embebido que está nessa verdade que inventou, que tanta gente já inventou também e partiu pra outra achando que não ia acontecer de novo- não! Agora eu sei!- mas acontece, porque seu pai e sua mãe lhe avisaram mas não mostraram como é que é, eles também o deixaram ficar doente, moribundo, morto, só que esconderam o corpo para que ninguém soubesse, nem você, e até hoje você pensa que ele ainda está lá -e está, só que morto e enterrado- bonitinho dormindo de conchinha entre os dois, só que é tudo mentira e ninguém lhe contou, é segredo e ninguém espalhou. Certamente você agora pensou em escrever um livro contando como é que faz pra senhora gorda não chegar, não bater e não entrar, um manual, tudo explicadinho, os passos em detalhes pra não ter errada, mas você só viu agora e ela já entrou, já se instalou, já casou e mudou de mala e cuia pra casa do teu amor e, sei não, o caso é de difícil recuperação. De repente você danou de lembrar daquela cerimônia de casamento em que os noivos precisavam ficar olhando um pro outro – assim, olho no olho- por horas a fio para poderem considerar-se casados. Só agora você se tocou que o passo era só um e simples, fácil de fazer, sem precisar de cálculos ou mapas ou receitas ou códigos, era só OLHAR pra ele que a Solidão não mudava pra sua casa nem ocupava o lugar que foi seu.
quarta-feira, 7 de março de 2007
TEIA DE ETERNIDADE
Depois do vento de hoje já não sei mais quais fios são meus e quais os teus, já não é preciso rupturas, separações, silêncios ou outras coisas que nos calam, coisas que nos traem, hoje somos um fio de certezas e eu nem sei se esta palavra existe ainda, tão certa que estou de tudo, das linhas nas quais nos enredamos sempre, sempre que dá vontade de se enrolar nesse tecer de júbilo que faz o favor de apagar todo o resquício de medo,dor, cansaço ou nostalgia, não fica nada, e assim costurada a nossa história não há quem ouse desmanchar, ela se torna (ainda que muitos pensem que isso nem é possível) indesfiável, indecifrável, incomunicável, ela jamais se desfia, há algo maior que a conserva intacta, mas não imóvel, ela vai tomando a nossa forma, a forma de cada dia, e vai ficando assim do jeito do nosso corpo e com o cheiro, o calor, o frio da nossa alma, sem que a gente saiba direito onde vai romper esta rede, seguimos na lua das nossas noites, no sol das nossas praias, sempre querendo mais, embebidos, costurados, mergulhados desde o pé até o último fio de cabelo nesta lama boa, (textura de nuvem mais molhada um pouco ,mais espessa um pouco) nesta areia desnuda que cai no olho e, pasmem, não deixa a gente cego, só de olhar meio anuviado, enxerga-se o necessário para permanecer assim, mole, incrustada na pele a teia da eternidade.
sábado, 3 de março de 2007
COMO DE COSTUME
Levantei-me no mesmo vagar dos dias em que acordo sozinha, quando já foste trabalhar, mas para meu espanto estavas na sala, parecendo fitar-me. Eis que tu passas por mim, entras no banheiro, escovas os dentes, olhas cada um para ver se estão mais brancos, pois é preciso impressionar o chefe e os clientes. Tento lembrar se estamos brigados ou não, o que é extremamente difícil a esta hora da manhã. Nada me vem à memória. Em vão balbucio algumas palavras para confirmar se tu me ouves. Nada. Se tivemos brigas deve ter sido algo sério, penso comigo. Arrumas tua bolsa como de costume, bufando, e eu me perguntando por que não me lembro, começo a irritar-me, também como de costume. De nada adiantou bradar e quando bateste a porta dizendo como estavas atrasado – como de costume- um gesto ficou faltando, e voltaste sem pudor à beira da nossa cama para me dar o beijo de antes de ir para o trabalho, mas, pasmem, eu não estava lá, quer dizer, eu estava, sendo que tu não conseguias me ver, então, sem ar, saíste novamente, porta afora. À soleira, esperei teu gesto como de costume, mas de novo passaste por mim como se não me enxergasse. Busquei os chinelos para ir ao teu encontro, calçando-os num automatismo louco, sem olhar sequer para o chão, abrindo a porta. Não te vi, vi apenas o vizinho vindo em minha direção com um risinho safado que me cobriu de rubor interno e externo. Não pude olhar para o meu próprio corpo mas ao apalpá-lo pude constatar o temível: estava completamente nua. Voltei correndo de marcha a ré e tranquei a porta, o homem porém a esmurrava sem dó, rindo de um jeito que é melhor que nem seja descrito. Bufando e resmungando – como de costume- subiste as escadas em velocidade. Soltei um suspiro de alívio, o vizinho afastara-se encabulado dizendo que errara de porta. Fizeste cara de quem não entendeu e passaste a chave na fechadura, vi tudo pelo olho mágico, abriste a porta tão abruptamente que despenquei no chão. Tonta, mal pude ver o que pegaste em cima da mesa, saíste tão rápido quanto entraste. Só mais uma briga, pensei, deve ter sido grave, ele deve estar chateado, só gostaria de saber o porquê de eu não conseguir me lembrar. Resolvi continuar a vida, isto deve passar, vou tomar um banho, antes lavar os olhos, colocar a lente...mas o espelho, que costuma refletir imagens, que devia refletir imagens, não refletiu a minha.
TORRE DE BABEL (OU ESCRAVA DA PALAVRA N° 2)
Nas fotos estamos sempre em risos duros, permanentes. No entanto, já se mostra difícil mantê-los assim, rígidos em meio ao meu sentimento único de não pertencer. Estrangeira de mim mesma, tento delinear outras formas para este rosto -o meu, que vos fita neste milésimo de segundo que já não é, agora foi – pois sobre minha voz, meu punho, meu sangue, já não gozo de nenhum poder. O que antes era motivo de orgulho – razão pela qual era até compreensível que fosse doído – hoje é meu cárcere. Mas não se atreva a me libertar pois serei como canário em gaiola, de nada adiantará fazer-me falar tua língua, sofro de impossibilidade letal quando se trata do aprendizado de outros idiomas. Rejeitadas instantaneamente pela minha já apodrecida massa cinzenta, as novas palavras, impedidas de atingir seu destino- meu preconceituoso léxico- vão formando uma imensa e fétida bile que meu corpo não hesita em regurgitar.
ESTRANGEIRA DE MIM
Ah, esta sensação louca e ao mesmo tempo branda de não pertencer, este estrangeirismo duro que persegue meu corpo como quem gruda e não é bom, como quem ama e não chega perto, como quem fala e não diz palavra. E palavras me sobram como me faltam as coisas que ocupam as outras almas deste mundo e as de outro – quem sabe? Eu que sempre vivi neste exato mundo -que hoje habitas comigo- e em outro ao mesmo tempo, querendo sempre ter os pés no chão, querendo ter as glórias mundanas não permitidas aos portadores da eterna epifania, incessante epifania, enquanto tantos imploravam ao Pai por um só momentinho que fosse, voando. Mal sabem eles o quão dolorido é não ter onde pisar, o quanto falta este odor impregnado da terra, o quanto custa cada segundo deste planar. Palavras não me faltam, eu sei, elas desabrotam como quem cospe fogo, como se não houvesse outro destino possível. E não há. Entre as muitas tentativas de calar, as vozes esbarram na sua sina embora não confirmada , mas presente. Pouco há o que fazer. Elas dançam doidas como o vento pobre do ventilador nas persianas da casa, artificiais ao mesmo tempo que espontâneas, só. Há pouco o que fazer. Os dedos correm o teclado, a tinta mancha o caderno, o lápis roça o guardanapo. E só.
PARA CANTAR A MULHER DA MINHA VIDA
Há que usar muitas palavras para cantar a mulher da minha vida. Palavras das mais castas, santas, brancas, calmas e leves, e até das vis, pois trata-se de pessoa humana.
Há que segui-las de adjetivos para que caminhem corretamente adornadas, do contrário seria pouco para falar daquela que me marcou como quem marca gado: a ferro e fogo. De início dói,mas agora permanece - sabor de eternidade - feito tatuagem que enfeita e veste, e dá o tom de quem a gente é. Palavras são poucas.
Há que usar das mais belas e quentes e frias e tácitas metáforas, assim como é próprio dos poetas que cantam suas amadas. Há que usar rimas, das pobres, das ricas e das medianas, sem discriminação de classe. Afinal, para cantar uma mulher faz-se preciso tanto as flores quanto os diamantes. Palavras, há que casá-las muito bem a fim de construir imagens, ofício da (boa) poesia. Que ao ler a mulher amada tenha um filme à sua frente, claro e sutil,
telas de grandes artistas animando-se a cada linha. Mas por mais que as palavras se façam solenes neste momento, há que tocar àquela que me emprestou seu seio e me entregou seu corpo. Tem de haver um beijo, um enlace.
E, por fim, há que dizer: “ainda que o tempo passe, ainda que sua pele perca o viço, ainda que o seus corpo feneça, ainda assim te amarei, cada vez mais”. Há que reproduzir o momento em que ela me viu pela primeira vez e, desamparado, ela me aninhou em seu colo e deixou rolar a primogênita das muitas lágrimas que ainda estavam por vir.
Há que segui-las de adjetivos para que caminhem corretamente adornadas, do contrário seria pouco para falar daquela que me marcou como quem marca gado: a ferro e fogo. De início dói,mas agora permanece - sabor de eternidade - feito tatuagem que enfeita e veste, e dá o tom de quem a gente é. Palavras são poucas.
Há que usar das mais belas e quentes e frias e tácitas metáforas, assim como é próprio dos poetas que cantam suas amadas. Há que usar rimas, das pobres, das ricas e das medianas, sem discriminação de classe. Afinal, para cantar uma mulher faz-se preciso tanto as flores quanto os diamantes. Palavras, há que casá-las muito bem a fim de construir imagens, ofício da (boa) poesia. Que ao ler a mulher amada tenha um filme à sua frente, claro e sutil,
telas de grandes artistas animando-se a cada linha. Mas por mais que as palavras se façam solenes neste momento, há que tocar àquela que me emprestou seu seio e me entregou seu corpo. Tem de haver um beijo, um enlace.
E, por fim, há que dizer: “ainda que o tempo passe, ainda que sua pele perca o viço, ainda que o seus corpo feneça, ainda assim te amarei, cada vez mais”. Há que reproduzir o momento em que ela me viu pela primeira vez e, desamparado, ela me aninhou em seu colo e deixou rolar a primogênita das muitas lágrimas que ainda estavam por vir.
CARA-METADE?
Muito tem se falado a respeito da cara-metade, muitos livros foram escritos, muitas músicas foram compostas, discussões em programas de TV, artigos de revistas, jornais, todos se ocupam de ensinar como se identifica, como se conquista a tal cara-metade, ou alma gêmea, ou par perfeito, como diriam alguns. Não concordo, para se ter uma alma gêmea, supõe- se duas pessoas iguais em, pelo menos, cinqüenta por cento, o que deve ser muito chato, não há quem goste de ser gêmeo, nada pior para se manter alguma individualidade, o casamento de duas almas iguais só pode ser, no mínimo, um saco. Já o par perfeito supera o limite da paciência.Todos nós sabemos que não existe ninguém perfeito, então, necessariamente, quando você procura seu par perfeito, você está procurando nada mais nada menos do que... um alguém que não existe, ou então você é um ser humano que extrapola os limites da pretensão e quer casar-se com Deus sem tornar-se padre. Impossível. No entanto, nada melhor na vida do que encontrar sua cara-metade. Não é a parte que te cabe, é a parte que te falta, que te completa, a calma que dilui a raiva dos agressivos, a delicadeza que freia a velocidade dos impulsivos, a letra que traduz a música das imagens, a massa que dá forma a uma idéia... E não há ninguém, pelo menos neste planeta, que não tenha seu pedaço vazio, onde não falta ao menos alguma coisa, mas várias delas, todas esperando para encontrar sua peça de encaixe, luva pra sua mão, língua pra sua boca, pálpebra pro seu olhar, bico pro seu seio, lápis pra sua folha em branco que, sedenta de intensa procura, encontra tempo, espaço e forma para ser preenchida. E em meio a tantos espaços em branco, há quem pense que a cara-metade, coitada, tem obrigação da eterna completude. Ledo engano. Se já é metade, nasceu metade, para sempre metade, morrerá metade. Serve apenas para limpar o pus das brumas renascentes, nossa sina.Não há nada melhor do que pairar a aura da perfeição no pobre perfurado donde sangra a falta.
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