segunda-feira, 1 de julho de 2013

Perdoando o adeus

CORDA



Escolhi andar na corda. Até que me equilibrava bem, a falta daquela palavra sempre me sustentou. Viradas de calcanhar e titubeios faziam parte. Nunca reclamei. Mas agora a tal palavra que sempre faltou saiu do silêncio onde sempre morou e o foi além do falsear. Não acreditei. Achei que não havia ouvido direito e pisei fundo, firme. Foi então que eu caí. E neste espaço entre a corda e o chão, quando o vento me corre a pele de leve às vezes, às vezes impetuoso, aproveito para pensar se ainda quero corda, se não prefiro ponte de madeira, passarela de concreto... do outro lado talvez as portas estivessem todas abertas, quem sabe? O fato é que ainda não cheguei ao chão. Há tempo para que decidas se colocas ou não a rede embaixo. No meio do caminho me aparecem balões de gás hélio, cipós, teias de aranha, galhos, escadas de emergência; mas a rede, a rede que me salvará tu podes colocar no lugar. O ar me entra boca adentro. Vejo-te assistindo a cena de um andaime, do outro lado. Teu olhar tranqüilo me anuncia que preparaste a minha cama. Encheste a bolha de sabão que me en-caminhará de volta à corda. Velocidade mais alta, olhos ardem e... agarro a teia.

domingo, 16 de junho de 2013

ENTREATOS

Inventei que conversava contigo mas não sei se você respondia ou não. Acho que não. E tomando banho, lembrei de ligar para saber como você estava. havia me esquecido que você estava bem, mas eu não precisava (ou não podia) ligar. A água muito quente, assim como as tuas palavras, foi me percorrendo a alma. Realizei que minha religião não permite estas conversas, mas eu ando doida de vontade de conversar contigo. Espero que você me chame durante a noite, que me puxe as cobertas. Eu, que sempre tive tanto medo... Metade deles foi você que me ajudou a vencer, mais esse... não temos estes contatos. Devo confessar ao padre estes desvarios?  Quero ouvir de novo você contar como foi a festa de sete anos da Luanda sob as tábuas da Sala Crismaran... e as tuas aulas com Maria Clara Machado? Quisera eu ouvir  de novo, sentada no chão, descalça tuas histórias, repetidamente e sucessivamente, sem intervalo entreatos.

CORAÇÃO ENXUTO

 

escrevi antes que o amor é óbvio, mas não me parece tão óbvio assim e construo uma teia novamente, não vinda do mesmo vento, mas de outro lado, de outro ventre, é o sopro da saudade que queima e nutre a cada dia uma ponta de ausência que não quer  cessar de doer, não procuro mais retirá-la, ela meio que se instalou e mudou de vez pra minha alma assim como quem invade, sem permissão, sem anunciação, sem nada, ficando. não me dou ao luxo de perguntar por que, não posso, baixo o olhar e me vem as tábuas frias da sua  sala de sonho, que de duras não tinham nada, eram  amolecidas de todo como o teu coração enxuto, que carrega tudo tão em perfeito equilíbrio que até parece mentira se tratar de gente humana. Uma ponta de serenidade e inquietude, na mesma proporção, guardados para o uso em momento oportuno. Como podia você saber tão bem quando lançar mão de cada um assim tão naturalmente, como mãe sabe o que significa cada choro do filho? Como podia você saber distinguir quando uma gargalhada escondia angústia ou era gargalhada mesmo

SEU NOME


Descobri a forma e pensei a maneira mais exata de usá-lo, o finíssimo arame grudado em brasão prateado. Difícil saber seu nome,   não nos servimos dele em tempos de consumo descartável, e nas indústrias deve haver algo mais moderno e prático. No entanto, intriga-me as sinapses. Fitando-lhe o corpo, decido que ele merece nome pomposo. Guardei-o longe das vistas  de quem quer que fosse, o privei de descasar-se pelo suor dos dedos calejados ou suaves de uma dama de unhas feitas, esculpidas em vermelho, e devia mesmo estar longe das crianças, na possibilidade que o engulam. Leve demais, flutuaria nas tramas do intestino até a água final. Minha avó talvez o guardasse entre dedais, agulhas, ovos e arcos de madeira. Eis que o descubro, losango fino e flexível, de igual movimento e ternura, mas sem as carnes tenras que recebem as águas turvas do amor. Passada a linha, volta à gaveta de onde nunca deveria ter saído. Enclausurado, o brilho jubiloso não mais lembrará do que pode e deve, ser esquecido.

(22/03/2013)


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Festa boa

Antigamente eu gostava de festas muito arrumadas, super produzidas,  comida e bebida em abundância, decoração impecável, som profissional, animação, etc. Hoje em dia uma boa festa, pra mim, passa bem longe disso. Comecei a perceber, convivendo com amigos maravilhosos, que festa é muito mais do que um dinheiro bem gasto, é uma desculpa sensacional para reunir aqueles que amamos, ou que são importantes pra nós. Festa boa, pra mim, hoje, é quando os convidados se sentem à vontade para pegar uma bebida no freezer, invadem a cozinha e pegam uma bandeja para ajudar a servir, fazem uma vaquinha para comprar o refri que acabou, chegam mais cedo para ajudar a arrumar, assumem papel de fotógrafo, de animador, se esforçam para enturmar os grupos diferentes, trazem um prato pra reforçar o cardápio e se acotovelam na cozinha numa conversa gostosa. Festa boa termina com um achegar dos mais íntimos depois que o restante foi embora, e sobra amigo pra ajudar a arrumar tudo e depois dormir na sala. Infelizmente, quem tem uma melhor condição financeira não costuma usufruir deste privilégio. Você nunca sabe se o fulano gosta mesmo de você ou veio só para aproveitar a “boca livre”. Meus superamigos fazem festas praticamente sem gastos, somente com a colaboração de quem os ama. E quando alguém ao meu lado reclama, eu tenho orgulho de dizer que estou amando, porque festa boa é assim, falta tudo, menos alegria e muita, muita vontade de ficar junto. Fui! Planejo mais uma festinha a baixo custo, somente para quem me ama...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Silêncio alegre

Antes de usar qualquer palavra eu clamo pela libertação dela mesma, de algum dia ser silêncio alegre, ser causa e vitória das suas pequenas andanças. Eu quero ser mais do que simples mão que consola ou corrige, quero ser a luz que guia tua corrida nua antes do banho gelado. Quero ser mais do que simples direção, do que simples colher que chega à tua boca, quero ser mais do que o olhar que vela, a boca que pede a repetição da reza, as pernas que ensaiam coreografias, a mão que traz a água para limpar o pincel, mais do que a portadora da cédula que compra os cadernos, quero ser parte tua como és minha, ser mais do que só uma boca que alerta do perigo, que regula tuas passadas, teu véu diante das atrocidades, aquela que vai buscar a lua no livro e folheia os canais até encontrar o que te agrade, quero ser mais do que os dedos que puxam a calcinha da gaveta, mais do que simples gesto que oferece a seringa amarga. Quero ser, antes de tudo, o silêncio que fala nas fotografias, a voz emblemática que te diz um segredo no ouvido e sente a benção da sua respiração a cada instante.

domingo, 29 de janeiro de 2012

sábado, 19 de novembro de 2011

Flora visional


Estar entre os pares como em disparate, emaparedada, de frente para o perigo mais que iminente- se é com e ou com i um tanto incerto se parece, pouco importa, o perigo está sempre no alto – no entanto sei que de longe a gente sempre direito, de perto a visão embaça, a vista traça o encosto, o enrosco, o gesto e há quem se perca em vertigens alucinatórias torturantes ataduras coruscantes ou vinhos rascantes. Nãobandeids de calcanhar no dois pra dois pra . Visão muito nítida entorta-me a veia cava do meu peito: singular para prevenir o estresse; singulair para prevenir a falta de ar; sing with us para prevenir a gagueira. Na farmácia de tudo um pouco se encontra para quem pouco quer- parece-me pouco suficientemas é demais, como um louco devaneio senil hostil febril ou azul anil. As rimas nunca foram necessárias  mas elas vêm assim mesmo, permito-me ser in-vadia-dida pernóstica visão esta minha que doura a pílula úmida na ponta da língua marca o dia da semana certo e o fura com a unha procurando evitar a vida que não chama, simplesmente vem eu disse que não queria ver tanto mas vejo e daí? A sorte mente, dá uma de Deus procurando resolver o que nem é da sua conta, mostra o que nem pedi para ver mas falta remoto controle desta imagem que se projeta no cristalino das idéias turvas. Mente. Muito mais quando os vultos, os embaçamentos da flora visional eram o foco. a sombra do lustre tilintando alimentava meu parco porco circo dos horrores. Tarde. não me adianta mais tirar os óculos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

No segundo seguinte tem mais...


Eles se conheceram há mais de trinta anos atrás quando ela disse oi e ele também disse. Pensou que era apenas confusão com outra pessoa, mas o caso é que ele era do tipo que conversa com todo mundo, fila de banco, de ponto de ônibus e de pão eram as preferidas para começar um papo, inventar umas mentirinhas sobre uma vida fenomenal que nunca levou e tal. Tudo de boa intenção, afinal, poderia nunca mais ver aquele indivíduo à sua frente, e imaginação gigante era o seu forte. ela sempre sonhou em perder o medo das pessoas e pensava um dia entrar no metrô e perguntar para a moça bem arrumada qual o creme de cabelo que ela usa, ou comentar que absurdo era a segurança neste país, e os políticos? é uma vergonha o que passou hoje na tevê... Mas como sempre teve medo, achava sempre melhor colocar os fones de ouvido, ler uma revista ou ficar ouvindo conversa alheia desviando o olhar quando percebida. Depois desse oi, no entanto, ela mudou um pouco e passou a puxar conversa com velhinhas e sorrir para crianças, mas ainda não encara nem senta ao lado de homens mais velhos. Ele também mudou, algumas vezes prefere passar a viagem olhando pro rosto dela com olhar de peixe morto, falando no seu ouvido ou lamentando os erros de ontem e hoje. Nenhum dos dois sabe ao certo se mudaram pra melhor ou pior desde àquele dia, se gastaram as horas pensando demais ou se foram muito longe quando entraram na vida um do outro. sabem que foi assim. No segundo seguinte tem mais...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Vinte anos depois


Desde aquele dia nunca mais nos vimos. Foi estranho ele aparecer assim, no meio do nada. Vinte anos depois ele não ganhou barriga, não agrisalhou os cabelos nem mudou a maneira de vestir. O jeitinho de surfista mostrava a total impossibilidade de procurar alguém como eu, mas o acontecido de duas décadas atrás também parecia improvável. Conversamos sobre o tal professor de teatro sádico que me pôs na parede naquela ocasião. Engraçado você ter me defendido, falei. Ele não achou engraçado, e sim necessário. Eu sempre fiquei na minha tribo, e você parecia um candidato a atorzinho da Globo. Mas não estávamos no Tablado, ele disse. Eu concordei. Talvez não tivéssemos que assistir a três horas daquela bendita entrevista egocêntrica. Ele riu. Ele ria muito bonito, assim como há vinte anos. Eu estranhei as minhas rugas, barriga e cabelos soltos, a súbita e recente vaidade, a coragem... e percebi que ele estava ali de passagem. No entanto, eu não era apenas mais uma pra ele, eu existia realmente. ELE era mais um pra mim. E se desfez, assim, na minha frente. Em poucos instantes era apenas um monte de branco amontoado na mureta onde antes sentava. Soprei.

segunda-feira, 7 de março de 2011

A lua de Ísis

Não foi a primeira vez que você me pediu a lua. Da primeira vez eu achei inebriantemente fascinante este teu desejo incontestável, teu amor platônico por uma falsa estrela. Explica o teu incômodo com a luz do sol? Talvez. A figura mítica da falsa estrela que não tem luz própria me invadiu e eu pude dizer: “Não dá, filha, tá muito longe...muito longe...” e continuei subindo as escadas te conduzindo pela mão. No entanto, pouco posso te guiar nas agruras do sonho. A lua nos seguiu –de novo- no caminho até em casa, repetindo o trajeto da primeira ocasião, que muito mais cheia, mais reluzente, ficou mais tempo enredada à janela do carro e desta vez você chorou, filha, um choro doído, de coração machucado mesmo quando ela se escondeu atrás de um prédio alto. “Somiu...”  Eu quis ficar triste, mas não pude, o desejo do impossível sempre foi o meu fraco. Quis pegar teclado, caneta ou lápis preto para desandar esta massa onírica de palavra e tatuar seu primeiro pedido epifânico: “Mamãe, eu quero a lua! É minha!” Não senti ter de dizer que está muito longe porque -como eu disse- os amores platônicos, as veredas espinhosas, os desertos intermináveis, o desejo do impossível sempre foi o meu fraco. E agora, filha, estamos mais perto do que nunca...

Amar os créditos

Sou do tempo em que a gente podia ficar no cinema para assistir o início do filme que se perdeu porque chegou atrasado. Nesse meio tempo, havia o esplendor do intervalo e podíamos aproveitar o momento dos créditos para namorar, comprar mais pipoca, ou apenas para prolongar aquela sensação boa(ou não) que o filme deixou na gente. A música ajuda a manter o clima e dá um tempo pra que se pense sobre o que vimos na tela. Como boa filha de cinéfilo (chegamos a ver ET, o extraterrestre seis vezes na tela grande) sempre amei este momento. A TV aberta considera perda de tempo, mas o DVD e a TV paga me mostraram que eu ainda podia ficar mais tempo abraçadinha ao final de um romance, manter o sorriso nas comédias, esticar as lágrimas nas histórias dramáticas ou reforçar as perguntas nos filmes alternativos. Meu marido, no entanto, nunca entendeu, desligava rapidamente o aparelho ao primeiro sinal de fim. Em nossas primeiras sessões juntos (quando ainda nos era permitido ficar) ele levantava correndo, escravo da pressa que nos levaria ao outro lado da rua. Hoje em dia, as crianças mostram a ele como este momento pode ser desfrutado. Elas aproveitam para dançar balé. Na tela nãoquase nada para se ver, as letras miúdas subindo no negrume, mas a música...a música tem o poder de nos fazer reviver a trama... Proponho um movimento a favor do depois, tanto no amor quanto no cinema. Os capitalistas nos tiraram o direito de amar os créditos. Findo o filme, um exército de funcionários uniformizados e adestrados nos expulsa do recinto. Depois de fazer amor é bom ficar abraçado, conversar, olhar no olho, dizer eu te amo e, talvez, começar de novo... Ouquem prefira sair correndo com as calças na mão?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

ESPETÁCULO DE SILÊNCIO

Quem será que vai me comprar estas lentes que ousarão afogar as ondas do contemplar, esta aflição, quem vai comprar a borracha que há de apagar as palavras que me enchem as teclas e as folhas dos cadernos? Quem vai comprar as tesouras que vão cortar as carnes que seguram estes ossos graves e pouco ágeis? Quem vai comprar as toalhas, as inúmeras que hão de secar estas lágrimas, estas lancinantes lágrimas, este poetar imundo que não goza de técnica apurada ou sentimento maior, nada tão raro ou único? Quem vai comprar as facas que hão de dilacerar as pérfidas metáforas, comuns mas que se pensam raras e dignas de acordes violinescos, quem vai? Quem se habilita, quem vai comprar os dedos a calar as vozes que ainda me assaltam as cordas roucas e de baixo tom calão ou outras de parca valia? Quem vai comprar os convites para este espetáculo de silêncio e dor? Quem vai comprar as seringas que vão sugar este sangue que escorre lento e lânguido pelas ruínas do penar? QUEM?

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Sem título

Não sai da minha cabeça aquele dia em que eu te dei o meu melhor presente até hoje. Não me lembro que data especial estávamos comemorando, mas as imagens estão todas aqui, na minha cabeça, posso reviver este momento como se hoje fosse. Não foi há tanto tempo assim, alguns anos atrás, mas você tinha um walkman – como soa antigo diante dos MP3, MP4, minúsculos e de inúmeras múltiplas funções! – que funcionava com fita cassete – esta provavelmente extinta!- Seguíamos o mesmo longo trajeto repetidas vezes de ônibus e costumávamos compartilhar o aparelho na viagem. Neste dia, eu trouxe uma fita, mas não fiz questão de um dos fones de ouvido. Contentei-me em assistir à sua reação, tonta imaginando que fragmento você estaria escutando ao esboçar este ou aquele desvio de olhar... As suas lágrimas caíam e eu, ávida de homens sensíveis, achei o máximo a cena. Era um poema que te fiz, lembra? Recitei diante do gravador - jurássico! - sem imaginar que forma que o teu rosto tomaria, de que jeito o teu olho molharia de sal a tua blusa suada, voltando do trabalho... Sorte minha. A melhor coisa do mundo é quando a realidade supera todas as expectativas. Por isso é que guardei este momento – e pretendo continuar guardando – bem no canto do peito. Hoje, quando te perguntei, você não lembrou... Percebi que era o melhor presente que eu te dei, mas na MINHA opinião, não na sua... Tenho este defeito: de prestar atenção naquilo que passa batido pra todo mundo, tipo: tropeçar no meio-fio porque estava olhando um bando de pombos que teimavam em voar juntos, em perfeita formação, numa manhã de junho, sobre os telhados do condomínio.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

URBANA VISÃO

A distinta moça de macacão amarelo é magra de nascença, loira de ocasião e negra de certidão. Solta seu brado retumbante a fim de tomar de volta o lugar no mundo que lhe tomaram à força. Mas o que toma são nossos olhos, com sua roupa que mal lhe esconde os glúteos.

DOENTE

Meu computador caiu doente e me custa escrever com caneta. Tenho dito que ele morreu, mas exagero. Há quem carregue nas tintas, eu nas palavras. Não na quantidade, mas no tanto que elas significam, é vital que estejam sempre inchadas de possibilidades. Com a máquina de férias, estou por demais incomodada. Escrevo a todo momento, mas deixo escapar os vocábulos, que se perdem pela falta de registro. Pouca coragem de pegar a caneta e este caderno. Cá dentro d’alma continuo todos os meus livros inacabados. Há o perigo de que nunca ganhem letra, tinta, muito menos impressão ou figura de eternas. Inauguro uma nova era: a da volta às canetas, lápis e cadernos. Será que este livro sai?

domingo, 1 de novembro de 2009

SÓ-LILÓQUIO

Deixa, deixa eu te ver inteiro nem que seja só a parte que se solta sozinha e anda entre nós sem precisar pedir, vem, deixa que eu te dispo sem que você precise permitir, eu te desejo assim, sozinha, de um lado só, do lado mais bonito, do lado que me cabe eu me jogo assim em cima do seu corpo sem que você precise mover um músculo porque eu te amo e posso te possuir, assim inerte de todo desejo ou luxúria, não é necessário que me beijes, deixa que te percorro o corpo com a minha língua magna e farta, ela vale pelos teus lábios e pelos meus, ela se basta, o meu amor se basta, deixa que eu te penetro a carne dura e febril, e se não é do lado direito que seja do esquerdo, que não é o lado certo mas é aquele que a gente tem, que a gente sente, é por ele que entra a luz negra e pouco fértil das mágoas, se você já não tem vida que bebas a minha, que bebas dos meus seios todas as dores e as palavras que você não soube dizer, todos os poentes que passaram e que você não viu, eles não se repetem mas não tem nada não, porque eu vi e os transformei em gozo e letra, só é preciso agora que você me aceite assim de passo passivo e frio, mas me aceite como quem estivesse jorrando uma vida que não te pertence mais, mas pulsa no leite quente que brota de mim como se de ti viesse. Deixa...

PELE NOVA (DESCASCAR-SE)

Toda mudança é clara e bem vinda se não quiser tomar de mim algo que fui e que não dá mais pra ser, algo que me foge como quem de longe vê o caminho mas não consegue chegar lá. Eu chego. Devagar, de tanto vagar eu enxergo as brumas altas que estão na cara de todos os mortais, mas é preciso cegar-se por dentro para se enxergar, tudo é tão claro como a cegueira branca branda do Saramago, que me toma a alma e nem pede assim: deixa eu ficar, deixa, que estou longe e larga de casa. É uma pele nova que se solta de mim nem preciso descascar-me, é tão fácil, vem de leve logrando-se enlameada de mim, como de noite achegar-se num ombro que não veio, mas eu vejo, porque me cega a alma esta clareza de tudo, este desejo profético de ver o belo onde ele se encalacra, e se perde, se entoca como rato em toca de bandido, encarcerado como loucos em seus retumbantes manicômios.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

MAIS

É mais do que deflorar a manhã que em sua crosta hostil impõe-se enquanto nevoeiro e enquanto hora. É mais do que dissipar as chamas da noite que se anuncia em oscilações oníricas. É mais. É mais que esfaquear a tarde em microscópicos fragmentos vis e depois recolhê-la em flor a cada novo crepúsculo. Sustento que é mais que isso. É mais que lutar com a pedra em seu rígido fastio e tecê-la em manto de eternidade. Talhada a lágrima, não faço mais que minha obrigação. Espero. Contento-me em debulhar relógios. É só o que me resta.

18 de junho de 2007.
(no ônibus, depois da observação de um nevoeiro)

BURACO

Inventei-me e espiei pra dentro como quem cava um buraco. Mas eis que percebo o óbvio: faltam-me as unhas crescidas para ajudar na cava, Faltou um pedaço grande quando terminei – ou supus ter terminado – a invenção de mim. Muitos me olham turvo torto como se eu nem gente fosse. Finjo não estar aí para esta gama de coisas, tento enxergar por dentro da nuvem - que de tão cinzenta me anuvia alma – ou sigo no labutar a construir o pedaço que falta. Encontro um toco de árvore e penso em aproveitá-lo mas é tarde. Todos os mortos já têm suas covas.